Diferente do filme, no livro
temos contato com acontecimentos no tempo presente. Somo apresentados a Meredith,
a pessoa que cria o grupo, extremamente fechada e, segundo entrevista com a
autora, possivelmente dentro do espectro autista. Claire, uma mãe suburbana de cinco
filhos, com uma vida a princípio bem comum. Yasmin, uma mulher de religião
muçulmana, grávida e com vários medos decorrentes disso. Lottie, que
sinceramente a história me passou batida, mas que é uma pessoa muito falante,
muito solícita, muito, muito! Edith, uma Sra aposentada, cuja história a
princípio serve apenas para trazer um outro personagem ao grupo que é seu neto.
Luke, único homem no coletivo, buscando um rumo pra sua vida, mas que não é tão
aprofundado assim. Finalmente Harper, a última a se integrar ao grupo e que faz
o perfeito estereótipo da adolescente raivosa e trevosa.
O livro é contado sob vários
pontos de vista, uma hora o capítulo mostra Yasmin, em outro já fala de Harper
e assim cada pequeno ato de cada um desses personagens reverberam para o ponto
central da trama. Sei que muitas pessoas não gostam desse formato de narrativa
por parecer um tanto confuso. Eu gosto muito, de certa forma nos obriga a
prestar atenção nos detalhes para entendermos se o capítulo acontece em um
tempo anterior ou posterior de um outro até conseguirmos montar o quebra cabeça
maior. Inclusive Game of Thrones, que é um sucesso literário, é todo construído
assim, e apesar do sucesso, muitas das críticas evocam essa característica.
O mote central envolve aceitação e preconceito.
Lottie é coordenadora de um bairro residencial planejado primeiramente para
idosos, porém como muitos lotes estão desocupados, a ideia é que eles sirvam de
primeira estadia para refugiados que chegam na Austrália e precisam de residências
baratas e assim se integrarem à sociedade australiana para posteriormente
caminharem com as próprias pernas.
Paralelo a isso, a comunidade
islâmica está construindo uma mesquita na região de Copeton.
Esses dois eventos, obviamente,
acarretam uma onda de ultranacionalismo, preconceito, e ataques de ódio. O
coletivo por sua vez, busca formas de combater essa onda de uma forma menos
bélica.
O legal é que mesmo as pessoas
do núcleo reaça, a autora dá uma certa profundidade nos mostrando que muitos
deles são pessoas deslocadas socialmente e que buscam um alvo, um bode expiatório
para extravasar todo o conteúdo armazenado neles.
Foi bonito testemunhar a
dicotomia Claire / Harper, e até um tapinha na cara de quem olha meio de lado mulheres
que optam por ser apenas mãe, que de apenas não tem nada. E aí eu me incluo,
estou sempre buscando mudar essa visão, mas maternidade é algo que até hoje me
assombra.
Claire tem uma vida bem comum,
uma mãe que vive com a casa em um verdadeiro caos, com criança berrando e
correndo por todos os lados e que busca o coletivo pra sair um pouco da sua
rotina, sentir que ainda pode se conectar com adultos.
Por outro lado, Harper é uma
adolescente em liberdade condicional que entra no grupo por indicação de sua
agente social, Sempre raivosa, sempre na defensiva e atacando antes que lhe
machuquem, mas que possui uma alma criativa e cujo alter-ego na internet é de
uma mulher casada, com filhos e uma casa sem graça do subúrbio, basicamente, Claire.
Isso fica ainda mais claro quando na página 253, as duas tem uma conversa bem
franca e Claire diz que Harper tem razão em dizer que a vida dela é bem chata.
Harper diz que só falou isso pra afastar ela, que na verdade ela acha que a
vida de Claire é tudo, ou seja, tudo que ela, com uma vida completamente
desestruturada, gostaria de ter.
Meredith é a personagem que
mais fala comigo, assim como ela, tenho muita dificuldade em fazer e
principalmente, manter amigos. Ela é extremamente controladora e pragmática por
achar que essa é a única forma de manter as coisas mais ou menos justas,
principalmente para pessoas tímidas e introspectivas como ela.
Em um momento de explosão onde
Lottie e Luke com sua expansão característica, parecem tomar conta do grupo ela
diz na página 145 “- Os extrovertidos nunca acham que as programações são
importantes. Preferem elevar a voz acima de todos, porque é assim que funciona
pra eles.” E ainda na página 147. “Quando você segue uma programação, tudo está
claro. Todo mundo sabe o que dizer e quando deve dizê-lo. Todo mundo tem vez,
mesmo que a pessoa seja tímida e não saiba se posicionar.”
Luke por sua vez trás aquele
personagem que, por querer ter uma aproximação com Meredith, busca saber como
ela funciona e por gostar dela, respeita sua forma de interagir com o mundo e até
aprende outras formar de ver o mundo e, como toda relação humana é uma troca,
também ensina Meredith outras formas de interagir com o mundo.
O que não gostei desse núcleo
foi ela ter transformado em romance, é como se ela estivesse dizendo que um
homem só vai se interessar em conhecer melhor uma mulher se houver interesse
romântico, poderia até ficar implícito que em algum momento eles poderiam até
virar um casal, mas porque não começar com uma amizade genuína? Inclusive na
página 261, depois de Meredith jogar na cara de Luke que ele nunca quis ser
amigo dela, ele diz: “- Se você fosse um cara, se você não fosse Meredith, se
você fosse... sei lá... um homem chamado Merv. Se você fosse o Merv em vez da
Meredith, eu iria querer ser seu melhor amigo.” E eu pergunto, por que um homem
não pode ser melhor amigo de uma mulher? Vamos mudar isso aí né, século XXI e
tal.
Enfim, gostei muito do livro
apesar de algumas observações, e talvez uma pessoa diferente de mim, se
conectaria com alguma outra personagem e veria problemas em outros aspectos,
leitura é isso, nunca é totalmente passivo, sempre colocamos conteúdo nosso
quando lemos.
Dizem que classificar arte é
inadequado, e confesso que tenho dificuldade com estrelas e notas em relação a
livros, o que posso dizer é que indico sim o livro, mas que não vai funcionar
pra todo mundo ou para todos os momentos. Se você estiver precisando de uma
coisa mais calma e até um pouco catártica, esse livro é pra você e caso você
leia e não goste, quem sabe ainda não é o momento de ler. Deixa ele descansar,
quem sabe futuramente ele vai ser exatamente o que você precisa?
E para não fugir à métrica 3 planetinhas. 🌎🌎🌎
Beijos