quarta-feira, 23 de outubro de 2024

POTINHO LITERÁRIO





Quem é leitor acaba com o tempo adquirindo o vírus da biblioteca, é quando a gente tem um monte livros não lidos na estante (alguns ainda no plástico) e cada vez comprando mais. 😳

E, é claro que não estou vacinada pra isso.

Eu já estava bastante incomodada com isso e queria encontrar uma forma de dar uma amenizada nessa situação, até porque, provavelmente tem livro que não vou gostar e que vou me desfazer, seja doando ou vendendo e assim abrir espaço para livros que realmente gosto.

Nasce assim o Potinho Literário! (O nome de início era Roleta Literária, mas não me agradou).

Fui passando a vista na minha estante e selecionando livros que me sinto propensa a ler nesse momento. Cheguei ao número mágico de quinze livros.

Pra me motivar ainda mais, fiz uma barganha comigo mesma que a cada cinco livros lidos do potinho tenho direito a comprar um livro novo da minha lista de desejos.

Não entra nessa compra, livros do clube de leitura que eu participo, claro, ou de assinatura. E não me impede também de ler outros ao mesmo tempo.



No meu instagram (@li_trelando) tem um vídeo meu sorteando a primeira leitura sorteada, e foi a HQ Nimona. Coincidentemente ela foi a inspiração para o projeto. E é bom que a leitura é rápida e me permite já partir para a próxima leitura, o que dá aquela sensação gostosa de riscar um objetivo.

Eu estava organizando minha estante, me deparei com a HQ e me surpreendi porque não lembrava que eu a tinha, foi quando me indignei comigo mesma de ter obras maravilhosas só pegando poeira.

No momento em que escrevo esse texto já até terminei de ler. Posteriormente publicarei minhas impressões sobre. Mas já adianto que gostei. 👍

Segue a relação dos livros que estão no potinho:

- Nimona de Noele Stevenson

- O inverno da bruxa de Katherine Arden

- O castelo animado de Diana Wynne Jones

- A metamorfose - Kafka

- Viagem ao centro da Terra - Julio Verne

-  As mil e uma noites Vol. 1 (ramo Sírio)

- Marcha para a morte de Shigeru Mizuki

- O soldador subaquático de Jeff Lemire

- O dia em que Selma sonhou com um Ocapi de Mariana Leky

- País sem chapéu de Dany Lafferrière

- Gótico nordestino de Cristhiano Aguiar

- Assombrações do Recife Velho de Gilberto Freyre

- Mariposa Vermelha de Fernanda Castro

- Nunca houve um castelo - de Martha Batalha

- Kaiju de John Scalzi

 

O legal é que consegui montar uma lista com muita variedade. Tem uma boa quantidade de autoras, tem HQ, ficção científica, fantasia e autores brasileiros. Estou bastante satisfeita.

Espero obter êxito nessa jornada, estou confiante!

sábado, 19 de outubro de 2024

HOJE É DIA DE LIVRO!

Enterre seus mortos

Autora: Ana Paula Maia






“Jesus, porém, lhe respondeu: “Segue-me e deixa que os mortos enterrem seus mortos”.

Mateus 8, 22

Enquanto lia o livro de Ana Paula Maia, esse trecho da bíblia se repetia incessantemente na minha mente. Ao longo da obra é possível identificar diversos signos que remetem às religiões cristãs, ora de forma cúmplice, ora confrontando seus seguidores.

Edgar Wilson trabalha recolhendo carcaças de animais mortos na estrada e depois levando para serem moídos e transformados em adubo. A autora não nos poupa as cenas grotescas e potencialmente chocantes. É quase possível sentir o cheiro de carne e sangue de forma que não seria de se espantar que alguém ficasse nauseado.

Ao invés de afastar o leitor, contudo, sua escrita parece exercer um fascínio que nos faz prosseguir.

E que bom que prosseguimos.

Em uma ronda de rotina, acaba seguindo urubus e encontrando um corpo humano, de mulher. Começa aqui sua jornada por um mundo que parece saído de uma fantasia nefasta. Juntamente com seu parceiro de ofício, Tomás, um padre, excomungado que oferece extrema unção às vítimas de acidentes nas estradas, Edgar resolve dar um fim digno àquele corpo.

Acompanhando Edgar Wilson carregar o corpo em seu carro, como um cortejo fúnebre quase sem fim, conhecemos personagens que de tão acostumados à morte tornam-se indiferentes a ela. Ele chega a refletir que os animais que ele recolhe, parecem melhor assistidos. E a crueza como os mortos são tratados, dão ao livro um clima de terror gore.

Selton Mello e Danilo Grangheia no filme Enterre Seus Mortos
Foto: Rui Poças Fonte: https://gshow.globo.com


Ainda assim, o personagem principal nos oferece uma dicotomia. Um homem acostumado ao trabalho bruto, braçal; que consequentemente o torna também bruto, mostra respeito e empatia ao se lembrar que aquela casca vazia, um dia foi uma pessoa que muito provavelmente tinha alguém que lhe queria bem.

Quanto à ambientação, o cenário é árido como as pessoas, como em um livro de faroeste. A forma de narrar o passar dos dias, é muito interessante, não tem um marco, uma quebra. Os dias se sucedem dando a impressão de continuidade, os dias são iguais. O tempo parece não existir. Um dos personagens inclusive diz que tanto o mal quanto o bem se ausentaram daquele lugar.

Como se afirmando seu gosto por dicotomias, somos apresentados à Nete, funcionária da mesma empresa de Edgar que, ao saber de sua determinação em destinar os corpos, pede que ele acrescente à sua jornada, a busca por sua prima que está desaparecida. Se ao longo do livro vemos a humanidade reduzida à pedaços de carne em um comércio, Nete subverte isso e finalmente enterra sua morta, como se cumprisse um tabu e quebrasse uma maldição.

Como uma fábula religiosa, o livro termina com uma cena grandiosa, Edgar e seu companheiro de sina se deparam com um rebanho de ovelhas mortas, como um sacrifício de sangue para fertilizar a aridez. Mas as ovelhas foram mortas pela tempestade enquanto seguiam seu pastor.

É muito difícil descrever esse livro em poucas palavras, causa estranheza, é visceral, é sem rumo, mas também é lindo. Ana Paula Maia, cria um mundo e um personagem cativantes e não à toa, ela se utiliza dele em várias de suas obras. Descobri pesquisando que esse é o primeiro livro de uma trilogia que segue em “De cada quinhentos uma alma” e se encerra com “Búfalos selvagens” e eu já coloquei ambos na minha lista de leitura.

Cartaz do filme Enterre Seus Mortos — Foto: Divulgação Fonte: https://gshow.globo.com

Foi anunciado para 7 de novembro a estreia do filme adaptado livro que conta com Selton Melo, Marjorie Estiano e Bety Faria no elenco. Pelas notícias que pesquisei, já vi algumas mudanças, o que é super normal em adaptações de uma mídia para a outra. Ainda assim, quero muito assistir ao longa, espero me apaixonar tanto quanto pelo livro.

E pra não fugir à métrica 4 planetinhas 🌎🌎🌎🌎




terça-feira, 8 de outubro de 2024

HOJE É DIA DE LIVRO!


O coletivo de crochê de Copeton
Autora: Kate Solly





    Apesar de não assinar a TAG Livros já há algum tempo, continuo acompanhando os lançamentos do clube, quando li a premissa desse livro, que seria lançado em Abril de 2024 na TAG inéditos, fiquei com vontade de ler por diversos motivos.

    Um deles porque me pareceu ser um livro leve de ler, confortável, aconchegante como um cobertor de crochê, usando todo o trocadilho do mundo (rsrsrs), e eu estava realmente precisando de uma leitura tranquila. Eu gosto de livros cabeças, densos e que me fazem pensar, mas preciso alternar com muitos outros confortáveis porque a vida já é densa demais e não quero me tornar uma pessoa amarga. Se você não se sente assim, meus parabéns, eu me sinto.

    Outro motivo pelo qual eu queria ler esse livro, é que ele me lembra muito um filme que assisti na adolescência e nunca mais consegui achar pra ver de novo, chamado Colcha de retalho, onde uma senhora convoca outra senhoras que fazem parte da comunidade para costurarem juntas uma colcha para dar de presente de casamento para sua neta. Enquanto elas vão costurando vamos conhecendo um pouco mais essas senhoras através das suas histórias.

    O legal é que esse filme é citado na revista da TAG sobre o livro.


    Diferente do filme, no livro temos contato com acontecimentos no tempo presente. Somo apresentados a Meredith, a pessoa que cria o grupo, extremamente fechada e, segundo entrevista com a autora, possivelmente dentro do espectro autista. Claire, uma mãe suburbana de cinco filhos, com uma vida a princípio bem comum. Yasmin, uma mulher de religião muçulmana, grávida e com vários medos decorrentes disso. Lottie, que sinceramente a história me passou batida, mas que é uma pessoa muito falante, muito solícita, muito, muito! Edith, uma Sra aposentada, cuja história a princípio serve apenas para trazer um outro personagem ao grupo que é seu neto. Luke, único homem no coletivo, buscando um rumo pra sua vida, mas que não é tão aprofundado assim. Finalmente Harper, a última a se integrar ao grupo e que faz o perfeito estereótipo da adolescente raivosa e trevosa.

    O livro é contado sob vários pontos de vista, uma hora o capítulo mostra Yasmin, em outro já fala de Harper e assim cada pequeno ato de cada um desses personagens reverberam para o ponto central da trama. Sei que muitas pessoas não gostam desse formato de narrativa por parecer um tanto confuso. Eu gosto muito, de certa forma nos obriga a prestar atenção nos detalhes para entendermos se o capítulo acontece em um tempo anterior ou posterior de um outro até conseguirmos montar o quebra cabeça maior. Inclusive Game of Thrones, que é um sucesso literário, é todo construído assim, e apesar do sucesso, muitas das críticas evocam essa característica.

    O mote central envolve aceitação e preconceito. Lottie é coordenadora de um bairro residencial planejado primeiramente para idosos, porém como muitos lotes estão desocupados, a ideia é que eles sirvam de primeira estadia para refugiados que chegam na Austrália e precisam de residências baratas e assim se integrarem à sociedade australiana para posteriormente caminharem com as próprias pernas.

    Paralelo a isso, a comunidade islâmica está construindo uma mesquita na região de Copeton.

    Esses dois eventos, obviamente, acarretam uma onda de ultranacionalismo, preconceito, e ataques de ódio. O coletivo por sua vez, busca formas de combater essa onda de uma forma menos bélica.

    O legal é que mesmo as pessoas do núcleo reaça, a autora dá uma certa profundidade nos mostrando que muitos deles são pessoas deslocadas socialmente e que buscam um alvo, um bode expiatório para extravasar todo o conteúdo armazenado neles.

    Foi bonito testemunhar a dicotomia Claire / Harper, e até um tapinha na cara de quem olha meio de lado mulheres que optam por ser apenas mãe, que de apenas não tem nada. E aí eu me incluo, estou sempre buscando mudar essa visão, mas maternidade é algo que até hoje me assombra.

    Claire tem uma vida bem comum, uma mãe que vive com a casa em um verdadeiro caos, com criança berrando e correndo por todos os lados e que busca o coletivo pra sair um pouco da sua rotina, sentir que ainda pode se conectar com adultos.

    Por outro lado, Harper é uma adolescente em liberdade condicional que entra no grupo por indicação de sua agente social, Sempre raivosa, sempre na defensiva e atacando antes que lhe machuquem, mas que possui uma alma criativa e cujo alter-ego na internet é de uma mulher casada, com filhos e uma casa sem graça do subúrbio, basicamente, Claire. Isso fica ainda mais claro quando na página 253, as duas tem uma conversa bem franca e Claire diz que Harper tem razão em dizer que a vida dela é bem chata. Harper diz que só falou isso pra afastar ela, que na verdade ela acha que a vida de Claire é tudo, ou seja, tudo que ela, com uma vida completamente desestruturada, gostaria de ter.

    Meredith é a personagem que mais fala comigo, assim como ela, tenho muita dificuldade em fazer e principalmente, manter amigos. Ela é extremamente controladora e pragmática por achar que essa é a única forma de manter as coisas mais ou menos justas, principalmente para pessoas tímidas e introspectivas como ela.

    Em um momento de explosão onde Lottie e Luke com sua expansão característica, parecem tomar conta do grupo ela diz na página 145 “- Os extrovertidos nunca acham que as programações são importantes. Preferem elevar a voz acima de todos, porque é assim que funciona pra eles.” E ainda na página 147. “Quando você segue uma programação, tudo está claro. Todo mundo sabe o que dizer e quando deve dizê-lo. Todo mundo tem vez, mesmo que a pessoa seja tímida e não saiba se posicionar.”

    Luke por sua vez trás aquele personagem que, por querer ter uma aproximação com Meredith, busca saber como ela funciona e por gostar dela, respeita sua forma de interagir com o mundo e até aprende outras formar de ver o mundo e, como toda relação humana é uma troca, também ensina Meredith outras formas de interagir com o mundo.

    O que não gostei desse núcleo foi ela ter transformado em romance, é como se ela estivesse dizendo que um homem só vai se interessar em conhecer melhor uma mulher se houver interesse romântico, poderia até ficar implícito que em algum momento eles poderiam até virar um casal, mas porque não começar com uma amizade genuína? Inclusive na página 261, depois de Meredith jogar na cara de Luke que ele nunca quis ser amigo dela, ele diz: “- Se você fosse um cara, se você não fosse Meredith, se você fosse... sei lá... um homem chamado Merv. Se você fosse o Merv em vez da Meredith, eu iria querer ser seu melhor amigo.” E eu pergunto, por que um homem não pode ser melhor amigo de uma mulher? Vamos mudar isso aí né, século XXI e tal.

    Enfim, gostei muito do livro apesar de algumas observações, e talvez uma pessoa diferente de mim, se conectaria com alguma outra personagem e veria problemas em outros aspectos, leitura é isso, nunca é totalmente passivo, sempre colocamos conteúdo nosso quando lemos.

    Dizem que classificar arte é inadequado, e confesso que tenho dificuldade com estrelas e notas em relação a livros, o que posso dizer é que indico sim o livro, mas que não vai funcionar pra todo mundo ou para todos os momentos. Se você estiver precisando de uma coisa mais calma e até um pouco catártica, esse livro é pra você e caso você leia e não goste, quem sabe ainda não é o momento de ler. Deixa ele descansar, quem sabe futuramente ele vai ser exatamente o que você precisa?

E para não fugir à métrica 3 planetinhas. 🌎🌎🌎

Beijos